Leio essas linhas; as linhas que por anos a fio te escrevi e nunca te enviei. As mesmas linhas que, brincando, criei melodias ao violão, com a doçura de breves acordes para, quem sabe, um dia te despertar.
Os anos passaram fugazes, meu rapaz, e aquela tarde de volúpia e desapego nunca se apagou em minha mente: esteve por trás de cada respiração, cada novo fôlego, cada risada, cada nova epifania e inspiração.
Esteve por trás de cada traço que pintei e de cada linha que prendendo a respiração, oscilante entre a perfeição e a perdição, rabisquei; esteve presente quando jurei meu amor por um homem melhor que ti de muitas formas, mas, que ainda assim, não eras tu.
E foi naquela tarde que meus pés flutuaram no abismo e meus pés bailaram ao vento e abri meus braços na queda, não procurando como melhor me agarrar e não mais cair, mas sim, como bailarina delirante que flutua pelos ares, buscando aumentar o momento do salto, do bailar, da perfeição do sonho.
Tu eras meu sonho, então. E eu não sabia o que significava para ti.
Naquela tarde, vi nossos filhos: lindas crianças com cachos de cobre, olhos grandes e claros. Sardentas e espertas, que povoariam o mundo com o nosso gene, o gene da perfeição.
Porque todos os nossos momentos eram de perfeição, então; inclusive os tristes e solitários.
Nossa velhice seria silenciosa, envelheceríamos juntos e ninaríamos os filhos de nossos filhos, com a benção da esclerose delirante de nossos avançados dias.
E depois que partistes naquela tarde, chorei cada lágrima que choraria por ti nessa vida: da tolice desse amor tão profundamente enraizado; suas folhas eram pequenas, amareladas e defeituosas; seu tronco condenado à morte, mas pelos céus, suas raízes perdurariam como um câncer em meu peito, macerando as delícias e os sofrimentos, numa miscelânea de caos e prazer.
E eventualmente alguma mágoa que o fizesse sangrar fundo e lembrar o quão vazio seria nossa co-existência e quão em vão o sacrificio de toda uma vida.
Entenda, não o fiz por mal: apenas o preço era alto demais e não estava disposta a pagar; não por falta de insistência, bondade ou amor. Mas a vida me ensinara a sabedoria egoísta das boas escolhas e não estava apta a sacrificar toda uma vida de realizações em nome de um amor provinciano, uma paixonite doida e que sequer sabia se o que tu sentias, sentia na mesma sintonia e intensidade, então. Se por algum breve momento eu tivesse suspeitado, teria sacrificado minha existência em honra desse amor fadado ao definhamento. Mas tu nunca, nunca, nunca, havia me dado esperanças. Não havia muito com o que sonhar: então fiz minhas malas, embarquei num trem e fui viver minhas possibilidades.
O tempo se escoou rápido, como o riso do tolo: e minhas escolhas e minhas realizações me afastaram por muito tempo de ti, daquela cidadezinha, do que seria nossa existência.
Minhas escolhas trouxeram o homem com quem me casei: doce e conversador, dedicado e carinhoso. Alguém que preenchia todo o vazio do meu espírito, que sabia tomar atitudes quando necessário e estava sempre ao meu lado, bem disposto e com uma visão ampla do campo de possibilidades. Era o aventureiro cuidadoso, que sabia seu lugar de origem e prezava por ele. E eu o amava tanto por suas qualidades quanto por seus defeitos e silenciosamente, maldizia as raízes nefastas entranhadas em meu peito.
A velhice ao lado deste homem não era uma promessa vazia e sim, a certeza de dias divertidos e plenos de graça; os filhos seriam crianças perfeitas, frutos do amor incandescente de duas almas irmãs e não filhos da solidão e tristeza. As histórias que contaríamos aos filhos de nossos filhos seriam histórias engraçadas e reais, lembranças intensas e vívidas de um tempo perdido e não histórias contraditórias e por muitas vezes densas, denunciando a falta de intensidade de nossos dias.
Esse homem permitia-me viver, criar e transmutar para criar novamente. Eu o amava e conseguia respirar: eu me lembrava de ti e o ar me faltava, lembrando-me do peso de toda uma vida.
Durante muito tempo, tu estivestes além dos meus pensamentos, por trás dos meus olhos nervosos, sempre esquadrinhando o horizonte em busca de mais. Estivestes em meus sonhos. Com todas as ocupações, de alguma forma, sobravam-me alguns segundos em que seu nome ou seus olhos, ou a lembrança da tua respiração invadia minha mente, como isqueiro que se acende no escuro e então fechava meus olhos para, por breves segundos, tornar um pouco mais real.
Quando soube que voltaria a viver naquela cidade, não tive esperanças de que ainda estarias lá. E quando te encontrei, frustrada fiquei, pois era mais nítido e colorido e vívido em minhas lembranças, pois o homem que todos diziam ser você não passava de uma massa de bolor e mofo embrigado, que fugiu ao me ver como um cão danado e, desde então, tua lembrança nunca mais me perturbou.
Só me restou a saudade, que sarcasticamente desdenhei, pois não poderia sentir saudades de um ser que chafurdava em mediocridade e desamor.
Um dia fostes o furacão avassalador que destruiu cidades, alastrou incêndios e trouxe enchentes. Fostes o maremoto que castigou minha enseada, o tutor que abusou da inocência perdida daquela que deveria educar.
Já fostes meu Paraíso no Inferno.
Hoje em dia, és apenas Boca do Inferno.