Sorriso de Aurora.

Partira.

Deixara um gosto de cinza em minha boca e meus olhos perdidos num mundo de questionamentos. Por que fizera isso? Mas nunca teria uma resposta. No fundo, talvez não esperasse por outro comportamento. Eu precisava de ti, do teu cheiro de flor fresca, do teu riso triste, dos seus olhos profundos e misteriosos.

Compunha lindas serenatas para ti e te imaginava sentada calada ao pé do piano com os olhos perdidos no horizonte; ou dançando solitária com seus fugidios vestidos ao sabor do vento atravessando alguma rua antiga no Centro; ou sentada, esperando pacientemente pelo amanhecer, não porque ansiavas por um novo dia – porque em verdade nunca te vi ansiar nada – mas sim porque aguardavas a mais pura luz do amanhecer, para te inspirares a pintar.

E sorrias… Era um sorriso tão genuíno que não existiria, mortal ou imortal, que fosse mais belo então.

Mas eu, tolo, julgava que o encanto de teu sorriso se devia ao amanhecer.
Só depois de muito tempo após aquele primeiro amanhecer ao teu lado é que me dei conta de que teu sorriso embelezava os meus dias, alegrava o meu ser e dava sentido aos meus acordes vazios…
E a cada nova cifra, sentia o arfar de teu peito e a entrega de teu corpo que como eu imaginava, cheirava à jasmim.

Não demorou muito e me tranquei em meu mundo, clamando pelo teu: mas do que sentia falta?

Em verdade, te desconhecia: nunca te deixei revelar nenhum grande segredo; eu quem perturbava teus silêncios mornos com arroubos de euforia ou crises de mau humor, sempre insatisfeito com algo, sempre com alguma reclamação tola. E mesmo quando te perguntavas algo com o mínimo interesse, nunca te deixava responder completamente: te cortava, ansioso por te mostrar que meu mundo não era tão vazio quanto o sentia, afinal.

Amava incessantemente os seus olhos: queria absorver aquele castanho profundo que refletia dourado a luz do sol; e teus cabelos de cobre, desalinhados numa trança sem jeito. Amava sobretudo a doçura com que falavas e a forma simples e tímida com que tentava me mostrar um pouco do seu mundo, suas telas, canções, cores, os sonhos que entrecortavam tua respiração leve num sono turbulento.

Quem tu eras, então.

E como ela amava!
Sua voz vibrava num timbre encantador e perdia toda timidez ao falar do que a encantava no mundo; o que encantava os meus dias. Ela era uma brisa de frescor em meus dias vazios e quando percebi, refrescava-me em seu sorriso e bebia de suas fontes castanhas todas as tardes. E quanto mais tinha sua companhia, mais ansiava do brilho de seus olhos; ou do seu perfume de flor que o vento insistia em me fazer notar e hoje, insiste em lembrar-me, como tortura.

A amava profundamente.
E mesmo depois daquele impulso desesperado, da entrega sôfrega e do prazer que emanava de nossas almas e evaporava de nossos poros… Não fui capaz de dizer.

Partira, mas deixara tão vívida em minhas lembranças seus gestos, suas delicadezas e seus rubores. Enchera meu coração e o deixara repleto de fantasias e cores, letras e encantos: e um silêncio morno, suspirante, que longas canções ao piano são incapazes de esfriar ou preencher. Que nenhuma tarde de verão conseguirá imitar: porque a falta de tua respiração me condenava a te lembrar e só havia encanto e graça nas lembranças.

Já não me importava de viver: te lembrava e isso me era suficiente.

Impossibilitado de compartilhar teu mundo, escrevia-te longas cartas que jamais pude enviar: durante muito e muito tempo, escrevi para depois rasgar. Escrevi e depois queimei, escrevi e esqueci dentro de uma gaveta qualquer.
E inúmeras vezes, amargurado e saudoso de ti, embriagava-me solitário nas madrugadas em que os amigos faltavam.

E então, num fim de tarde qualquer, tu retornastes. Estava mais madura e mais esplêndida: impossível não dizer que mais bela e graciosa do que nas lembranças. Os ventos não mentiram e teu aroma de flor fresca me perseguiu com mais força e sem pudores por ruas de pedras antigas e corredores com quadros familiares.

Após dois longos anos, Caroline retornara.

E estava casada.

Publicado em: às outubro 3, 2008 em 3:07 pm  Deixe um comentário  

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