Cabelo de anjo.

Desculpa, amor, se te fiz de bobo: mas meu coração não se fez de rogado e desejava mais do que um cantinho para chamar de seu. Então eu sacudi meus cabelos, retoquei caprichosamente o batom, calcei um salto alto e renunciei às suas promessas para além deste momento e rumo à eternidade.

O meu cheiro ainda está entranhado em tua pele e você vai sentir meu cabelo roçar em suas costas durante as noites insones durante muito, muito tempo, porque eu o encantei para que assim fosse. E enquanto me maldizes e desejas, eu estarei fumando calmamente num bar qualquer, à espera de outro cliente, para viciá-lo em meus abismos e tomar-lhe o dinheiro, nem sempre tão suado ou merecido, mas sempre bem-vindo.

E enquanto te embriagas e deliras com meu nome embrulhado em sua garganta, eu danço suavemente um tango em uma noite sem lua, com estrelas omissas num céu distante, participando como figurante dos sonhos de outro, que vai me possuir e me permitir somente enquanto em mim houver o deslumbre, ou o dinheiro me for conveniente. E depois é outro adeus, outro táxi e mais algumas noites solitárias, para depois, o despertar e a caçada.

E se calada, numa noite morna divagar sobre como seria minha vida sem o dinheiro, a libertinagem e a desilusão, esbofeteia-me com força, para o lirismo doce de alma adolescente eu abandonar, e lembrar-me da longa caminhada até aqui. Do sofrimento  e humilhação que já passei, e dos abusos e perigos que me permiti.

E do esquecimento, que docemente me permito, como prêmio de consolação por não saber ser, nada mais que uma menina assustada, a fugir de si mesma, por trilhas incansáveis.

Published in: on agosto 14, 2009 at 9:01 pm  Deixe um comentário  

Flor de laranjeira e pitada de verbena

O encanto dos dias sumira…

E Elisa se fora: abrira a porta uma bela manhã – sua discreta valise, carregava mais lembranças que objetos – e partira quase tão suavemente quanto chegara e eu fiquei sentado na cama, por longos momentos, pálpebras pesadas, um amargo na boca: a amargura daqueles que foram abandonados e ficam, de repente, esperando pacientemente por um dia que nunca chegará.
O retorno daqueles que não querem voltar.

Começo a ver as paredes muito brancas, as estantes com alguns espaços entre os livros, espaços que mais pareciam buracos, buracos da minha alma que se expressavam no mundo, lá fora. Amava-a infinitamente mais agora, do que jamais conseguira ama-la quando estava ao meu lado.

O vento levanta as cortinas, balança os cabelos contra minha testa, um telefone toca ao longe. O sol está alto, rolo na cama, ainda há o cheiro suave de flor fresca em sua fronha. Um desejo intenso de ir atrás dela surge em minha mente, mas de repente embola-se com os outros pensamentos e só há aquela melancolia anestésica e o cheiro de flor, que só agora reparo que não está impregnado apenas na fronha, mas sim, em todo o lado que Elisa ocupava na cama.
E de repente, o cheiro estava em todo o apartamento, em cada canto; em todas as lembranças de Elisa: desde o sorriso tímido de menina do interior, até a ferocidade de sua raiva; estava no aroma bom, do leite que fervia com canela e outras especiarias todas as manhãs e nos seus olhares distantes, quando contemplava o passado, perdida no presente.
E agora, não haveria mais nada disso.
Elisa se fora, eu a perdera, a perdera para ela mesma.

E quando todos os sóis se põem e desaparecem no horizonte.
E quando só há a ternura da saudade, dos dias que não voltam.
E quando só há a certeza, de todo o desperdício de beleza nas frases pré-moldadas e das situações incontroláveis.
A versatilidade de abandonar, ainda é muito mais sustentável que a bravura de permanecer e constatar que, dos seus mundos perfeitos, apenas restaram escombros.
E pérfidas lembranças.

As salas vazias, cheirando a mirra, o vento que levanta preguiçosamente alguns jornais velhos pelo chão. O sol da tarde iluminava o amplo salão, invadia tudo através das vidraças das janelas. O chão cru, as paredes tristes e vazias, ainda guardavam as marcas dos quadros que lhe foram pendurados durante muito tempo, ainda que impossível de definir.

Elisa dá uns passos pelo apartamento, mesmo sabendo que até essa certificação era em vão, porque sabia que aquele era o apartamento desde o abrir da porta:
– É esse!, disse para o gorducho da imobiliária, num terno azul e camisa em outro tom de azul e gravata com pintinhas vermelhas, se achando muito sensual naquele equívoco de cores.
Então, lá estava sua nova moradia: carecia de uma nova pintura, alguns quadros e todo mimo e carinho que os apartamentos que ficam muito tempo vazios necessitam para se tornarem ambientes mais felizes, ao menos enquanto da sua estadia ali.

Mas era tudo que ela precisava, para respirar melhor e se sentir livre, tão livre quanto era possível após o relacionamento estável, rotineiro e entediante que vivera no último ano; quando acabara-se a paixão, o furor, o amor?

Para ela, talvez quando foram feitos os planos a longo prazo, como um financiamento sem fim! Sim, definitivamente, quando se sentiu cativeira dos planos do outro.
Mas agora estava novamente no controle de seu destino, livre para decidir seus próprios planos.

Bastava-se.

E estava infinitamente feliz.

Published in: on junho 13, 2009 at 12:30 pm  Deixe um comentário  

Epifania

É bem aqui! Falava Catarina para o médico enquanto esfregava as unhas perfeitamente pintadas de rosa por entre os seios. É aqui que dói! Repetia sem cessar, com a respiração abafada por uma dor lascinante que chegava a lhe entorpecer a visão.

A angústia que sentia desde a manhã do dia anterior era tanta e tão abafada que, depois de uma insuportável noite insone, resolveu que ia ao médico para que ele ao menos lhe prescrevesse algum medicamento para diminuir a dor.

Não havia motivos para tal. Sua vida andava relativamente bem: bom emprego, vida social estável, paixão à flor da pele; mesmo assim uma pressão nova se instaurou em seu peito e a comprimia de tal modo que ela não conseguia raciocinar, ou se concentrar no trabalho, ou mesmo permanecer cinco minutos que fosse parada em algum lugar. Sentia que seu coração estava maior que o peito e batia tão descompassado que não parecia conseguir bombear a quantidade de sangue suficiente.

O médico lhe prescreveu um calmante leve, vitaminas, repouso e, se os sintomas persistissem, que ela procurasse algum psiquiatra que poderia lhe ajudar melhor. Voltar para a casa tendo a sensação de estar em tratamento, de ser medicada, lhe deu um novo ânimo para que ela subisse as escadas para seu apartamento de primeiro andar e se tornasse disposta a encarar essa manhã ensolarada e alegre de sábado que estava à sua frente.

Som ligado em uma música animada para tentar atribuir ao espírito os compassos da música e um telefonema para o namorado – juntamente com os remédios – com certeza a trariam de volta ao mundo real onde ela perceberia o quão vãs eram as preocupações inexplicáveis que sentia. Chegou-se à janela para tomar ar e, ao olhar para a avenida movimentada que se apresentava diante de si, lembrou-se de tudo, uma cena claramente desenhada em sua memória. Uma mulher, um entardecer chuvoso… e o rosto e a expressão daquela mulher loira – que não era nem mais bonita, nem mais charmosa e nem mais interessante que ela – ficariam marcados para sempre em sua alma; a satisfação com que a estranha andava calmamente pela chuva, como se sentisse cada gota que caía em seu corpo magro despertaram em Catarina uma sensação nunca antes experimentada. Por que ela não conseguia ser como aquela mulher que parecia se entender e se misturar com o mundo de maneira tão plena? Por que para ela tudo era tão complexo, tão cheio de detalhes e por que precisava de tanto para se sentir satisfeita?

Todas esssas perguntas lhe bombardeavam a cabeça enquanto olhava fixamente para a avenida diante de si e, quase que mecanicamente, suas unhas impecavelmente pintadas se entranharam por entre os seios com o objetivo inútil de tentar abrir um espaço para que a pressão que ela sentia parasse.

Uma farsa era sua vida. Uma farsa era sua vida. Pensava desesperadamente enquanto olhava para seu apartamento e percebia que nenhum dos móveis, nenhum dos tapetes e nenhum dos vasos de flores reproduziam o que ela realmente era, mas sim o que ela queria que os outros pensassem dela. Sempre fazendo o que agradaria aos amigos, ao patrão, ao namorado e nem um segundo pensando no que realmente a faria feliz. Mas o que me faria feliz? Catarina se fez essa pergunta e percebeu, com a pressão no peito maior do que nunca, que não tinha a resposta para tal questionamento; e sabia que nem a música, nem os remédios poderiam lhe ajudar naquele momento e também sabia que a partir daquele segundo ela nunca mais seria a mesma.

Published in: on março 7, 2009 at 2:26 pm  Comments (2)  

O Temporal.

A loucura dos seus dias, ele dizia, não se baseava no fato de amá-la a um nível absurdo, doloroso e enraizadamente profundo.
A loucura de seus dias baseava-se na ausência da cabeleira escura de Martina preenchendo o branco da cama, na falta do seu cheiro de alfazema pela casa, do seu riso que não preenchia mais o vazio entre os livros nas estantes.

Era a falta da luz que emanava de seus olhos densos quando sorria e a forma quase maternal que o abraçava, quando pressentia que ele sentia temor. Era o respeito que tinha pelo tempo: jamais estava atrasada ou adiantada, parecia que dominava de cor cada instante, que os minutos eram escravos e as horas, servos a seu dispor.

Era o encanto que sentia quando ela falava das suas viagens, fosse por capitais badaladas ou pelos povoados quase esquecidos e engolidos pela goela sedenta da vida moderna. Eram os vestidos e as rasteirinhas, as saias rodadas, as meias caprichadas, o estranho gelo nas mãos quando ficava nervosa e o rosto que se empalidescia mais, quando ela apenas sentia.

Mas de tudo que ele amaldiçoava, amaldiçoava mais a falta da luz que emanava dos olhos de Martina, quando ela sorria, da falta de seus passos de borboleta e de quando cantarolava Moon River quando estava feliz.

Tiveram uma amizade longa e profunda, e o envolvimento sexual era visto como prazer e nada mais; faltou-lhe coragem para assumir que a amava, e a ela, faltava tempo para esperar tal madurecimento. Martina caminhara porta a fora, num amanhecer qualquer, como quem dá novo fôlego ao seu dia.

Os meses escorreram pelo calendário: Renato etava pronto para prosseguir seus dias, sua vida e sepultar a falta daqueles passos de bailarina de sua mente. Mas, para Martina, aquela partida fora apenas o início: o amor por Renato a sufocava, precisava de novos horizontes, noites de paz.

Então, um dia, Renato almoçava calmamente no canto de um restaurante, pensando nos casos que tinha para defender, estudando estratégias, ruminando hálibes. Uma voz baixa pediu-lhe licença para dividir a mesa; ele não se importou. Foi então que seu coração sentiu o cheiro de alfazema e despertou de todo o torpor. À sua frente, estava sentada, pura e simplesmente, Martina, com uma caneca de capuccino à sua frente e um sorriso tenso, os olhos brilhantes e ansiosos.

O relógio parou. O tempo, desacelerou de sua curva insana e parou à beira da estrada, para vislumbrar o horizonte.
O que ele faria? A abraçaria forte? Gritaria com ela? Choraria? Levantaria e iria embora sem dizer palavra? Não, qualquer opção estava fora de cogitação, demonstraria fraqueza.

Fraqueza ou franqueza?

O tempo continuava a vislumbrar o horizonte, parado e Renato absorvia a calma ansiosa dos olhos de Martina. Sentiu-se anestesiado. O tempo voltava à sua realidade vertiginosa; Renato resolveu entregar-se à anestesia e, na entrega, afogar-se no cheiro de alfazema.

Resolveu olhar atentamente a Martina que apresentara-se. Continuava magra, não envelhecera um minuto sequer, os mesmos lábios desejáveis, a mesma pele impecável de alabastro. Os cabelos escuros agora estavam curtos, num corte que acentuva seu olhar de felino à espreita. Começou a tremer imperceptivelmente. Levantou-se estabanado, num pulo e estendeu a mão; ela esquivou-se, o abraçou.

E aquele abraço, aquele abraço quebrou todas as suas barreiras, inundou os campos, incendiou os celeiros da ressalva, da mágoa, do rancor. Era Martina, a Martina do café forte, receita de uma tia, sempre dizia ao receber elogios; era Martina que prendia a respiração antes de uma decisão importante, era Martina que deitava no gramado para alimentar seu pálido corpo com a luz do sol do entardecer de outono.
Era Martina que o embebedava com pães e vinhos em determinadas noites, ao luar. Era Martina que lhe apresentava as constelações do céu e suas origens mitológicas. Era Martina que perfumava a casa com canela e cravo, quando estava triste. 

O temporal desabou lá fora com os pingos violentos nas vidraças e as ondas vertiginosas do maremoto destruiram a enseada. Renato por um longo momento de um breve beijo, esqueceu-se da mulher, dos filhos. Não lhe importava mais nada, a não ser o sabor puro de vinho do porto, dos lábios de Martina.

Published in: on fevereiro 5, 2009 at 10:53 pm  Comments (1)  
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Boca do Inferno

Leio essas linhas; as linhas que por anos a fio te escrevi e nunca te enviei. As mesmas linhas que, brincando, criei melodias ao violão, com a doçura de breves acordes para, quem sabe, um dia te despertar.
Os anos passaram fugazes, meu rapaz, e aquela tarde de volúpia e desapego nunca se apagou em minha mente: esteve por trás de cada respiração, cada novo fôlego, cada risada, cada nova epifania e inspiração.
Esteve por trás de cada traço que pintei e de cada linha que prendendo a respiração, oscilante entre a perfeição e a perdição, rabisquei; esteve presente quando jurei meu amor por um homem melhor que ti de muitas formas, mas, que ainda assim, não eras tu.

E foi naquela tarde que meus pés flutuaram no abismo e meus pés bailaram ao vento e abri meus braços na queda, não procurando como melhor me agarrar e não mais cair, mas sim, como bailarina delirante que flutua pelos ares, buscando aumentar o momento do salto, do bailar, da perfeição do sonho.
Tu eras meu sonho, então. E eu não sabia o que significava para ti.

Naquela tarde, vi nossos filhos: lindas crianças com cachos de cobre, olhos grandes e claros. Sardentas e espertas, que povoariam o mundo com o nosso gene, o gene da perfeição.
Porque todos os nossos momentos eram de perfeição, então; inclusive os tristes e solitários.
Nossa velhice seria silenciosa, envelheceríamos juntos e ninaríamos os filhos de nossos filhos, com a benção da esclerose delirante de nossos avançados dias.

E depois que partistes naquela tarde, chorei cada lágrima que choraria por ti nessa vida: da tolice desse amor tão profundamente enraizado; suas folhas eram pequenas, amareladas e defeituosas; seu tronco condenado à morte, mas pelos céus, suas raízes perdurariam como um câncer em meu peito, macerando as delícias e os sofrimentos, numa miscelânea de caos e prazer.
E eventualmente alguma mágoa que o fizesse sangrar fundo e lembrar o quão vazio seria nossa co-existência e quão em vão o sacrificio de toda uma vida.

Entenda, não o fiz por mal: apenas o preço era alto demais e não estava disposta a pagar; não por falta de insistência, bondade ou amor. Mas a vida me ensinara a sabedoria egoísta das boas escolhas e não estava apta a sacrificar toda uma vida de realizações em nome de um amor provinciano, uma paixonite doida e que sequer sabia se o que tu sentias, sentia na mesma sintonia e intensidade, então. Se por algum breve momento eu tivesse suspeitado, teria sacrificado minha existência em honra desse amor fadado ao definhamento. Mas tu nunca, nunca, nunca, havia me dado esperanças. Não havia muito com o que sonhar: então fiz minhas malas, embarquei num trem e fui viver minhas possibilidades.

O tempo se escoou rápido, como o riso do tolo: e minhas escolhas e minhas realizações me afastaram por muito tempo de ti, daquela cidadezinha, do que seria nossa existência.
Minhas escolhas trouxeram o homem com quem me casei: doce e conversador, dedicado e carinhoso. Alguém que preenchia todo o vazio do meu espírito, que sabia tomar atitudes quando necessário e estava sempre ao meu lado, bem disposto e com uma visão ampla do campo de possibilidades. Era o aventureiro cuidadoso, que sabia seu lugar de origem e prezava por ele. E eu o amava tanto por suas qualidades quanto por seus defeitos e silenciosamente, maldizia as raízes nefastas entranhadas em meu peito.

A velhice ao lado deste homem não era uma promessa vazia e sim, a certeza de dias divertidos e plenos de graça; os filhos seriam crianças perfeitas, frutos do amor incandescente de duas almas irmãs e não filhos da solidão e tristeza. As histórias que contaríamos aos filhos de nossos filhos seriam histórias engraçadas e reais, lembranças intensas e vívidas de um tempo perdido e não histórias contraditórias e por muitas vezes densas, denunciando a falta de intensidade de nossos dias.
Esse homem permitia-me viver, criar e transmutar para criar novamente. Eu o amava e conseguia respirar: eu me lembrava de ti e o ar me faltava, lembrando-me do peso de toda uma vida.

Durante muito tempo, tu estivestes além dos meus pensamentos, por trás dos meus olhos nervosos, sempre esquadrinhando o horizonte em busca de mais. Estivestes em meus sonhos. Com todas as ocupações, de alguma forma, sobravam-me alguns segundos em que seu nome ou seus olhos, ou a lembrança da tua respiração invadia minha mente, como isqueiro que se acende no escuro e então fechava meus olhos para, por breves segundos, tornar um pouco mais real.

Quando soube que voltaria a viver naquela cidade, não tive esperanças de que ainda estarias lá. E quando te encontrei, frustrada fiquei, pois era mais nítido e colorido e vívido em minhas lembranças, pois o homem que todos diziam ser você não passava de uma massa de bolor e mofo embrigado, que fugiu ao me ver como um cão danado e, desde então, tua lembrança nunca mais me perturbou.

Só me restou a saudade, que sarcasticamente desdenhei, pois não poderia sentir saudades de um ser que chafurdava em mediocridade e desamor.

Um dia fostes o furacão avassalador que destruiu cidades, alastrou incêndios e trouxe enchentes. Fostes o maremoto que castigou minha enseada, o tutor que abusou da inocência perdida daquela que deveria educar.

Já fostes meu Paraíso no Inferno.
Hoje em dia, és apenas Boca do Inferno.

Published in: on dezembro 13, 2008 at 12:04 pm  Deixe um comentário  
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Cativeiro

Às vezes, cansava. E tamborilava os dedos por sobre a toalha branca da mesa, impecável em seus bordados e peculiaridades: parecia que tamborilava os dedos por sobre sua própria vida.

Ouvia os resmungos do marido, o reclamar dos filhos: ninguém parecia ouvir sua voz, ou reconhecer seu cheiro pelos corredores limpos da casa. Entristecia: carecia de reconhecimento.

Um dia, tirou o fone da extensão do gancho sem saber que o marido estava apaixonado, delicado e deliciado com uma mulher de voz rouquinha ao outro lado.

Sentou em choque no chão e chorou: não porque o marido a traíra e a magoara, mas sim de gratidão: ele lhe dera a sua alforria. Jamais abandonaria as crianças e o marido, mas, com a descoberta da traição, não havia mais sentido nesse apego!
Estava livre.

Não fez escândalo. Entrou no quarto com o marido ainda falando ao telefone e tirou o fone da mão dele, que atônito não teve reação: agradeceu à mulher do outro lado. Contou sobre a noite de núpcias, sobre toda a expectativa de uma vida de maravilhas, sobre todas as promessas quebradas. Contou da frustração, do anulamento e das exigências do marido, nunca satisfeito. Contou dos filhos que só respeitavam o pai, que não sabiam dar carinho e achavam que ela era uma empregada. Fora uma armadilha, ela assumia, que caíra quase sem saber e deixou a situação fugir do parco controle e virou escrava de uma vida que não lhe pertencia, que não lhe agradava.

Ao desligar o telefone, disse suas regras ao marido: que ele ficasse com a casa e as crianças e ela só queria algum dinheiro e a liberdade para ir embora e nunca mais voltar. Que se separassem pela distância, que de tão emocional se tornara física: materializara-se de vez entre eles.
Ela queria partir, criar.

Ele chorou. Não porque se culpasse da traição ou da infelicidade da mulher que passara os últimos dez anos ao seu lado e que ele jurara amar eternamente. Mas sim, porque sentiu-se abandonado ao relento e desorientado.

Rita estava livre. Na manhã seguinte, após despachar os filhos para as aulas, fez suas malas com poucas coisas e roupas. Enfiou tudo no banco de trás do carro de Humberto e partiu. Pela primeira vez após o dia do casamento, usava maquiagem e salto alto; era como uma borboleta que novamente coloria suas asas e bailava por sobre saltos felizes.
Não precisava mais daquelas roupas, daqueles objetos: eles não lhe pertenciam, pertenciam à mulher resignada e submissa, sofrida e angustiada que vivera dentro de seu corpo durante os últimos anos.

Nos primeiros dias, dirigiu sem direção: não sabia bem para onde ir. Depois de algumas noites numa pousada barata, decidiu-se por um recomeço: com o dinheiro no banco, alugaria uma casa simples, faria algum curso e tentaria assim, levar a vida adiante; não precisava de mais, porque ainda não lhe havia tido tempo para sonhar e ambicionar uma vida completa.

Bastava-lhe um início.

Published in: on dezembro 8, 2008 at 4:26 pm  Deixe um comentário  

Sorriso de Aurora.

Partira.

Deixara um gosto de cinza em minha boca e meus olhos perdidos num mundo de questionamentos. Por que fizera isso? Mas nunca teria uma resposta. No fundo, talvez não esperasse por outro comportamento. Eu precisava de ti, do teu cheiro de flor fresca, do teu riso triste, dos seus olhos profundos e misteriosos.

Compunha lindas serenatas para ti e te imaginava sentada calada ao pé do piano com os olhos perdidos no horizonte; ou dançando solitária com seus fugidios vestidos ao sabor do vento atravessando alguma rua antiga no Centro; ou sentada, esperando pacientemente pelo amanhecer, não porque ansiavas por um novo dia – porque em verdade nunca te vi ansiar nada – mas sim porque aguardavas a mais pura luz do amanhecer, para te inspirares a pintar.

E sorrias… Era um sorriso tão genuíno que não existiria, mortal ou imortal, que fosse mais belo então.

Mas eu, tolo, julgava que o encanto de teu sorriso se devia ao amanhecer.
Só depois de muito tempo após aquele primeiro amanhecer ao teu lado é que me dei conta de que teu sorriso embelezava os meus dias, alegrava o meu ser e dava sentido aos meus acordes vazios…
E a cada nova cifra, sentia o arfar de teu peito e a entrega de teu corpo que como eu imaginava, cheirava à jasmim.

Não demorou muito e me tranquei em meu mundo, clamando pelo teu: mas do que sentia falta?

Em verdade, te desconhecia: nunca te deixei revelar nenhum grande segredo; eu quem perturbava teus silêncios mornos com arroubos de euforia ou crises de mau humor, sempre insatisfeito com algo, sempre com alguma reclamação tola. E mesmo quando te perguntavas algo com o mínimo interesse, nunca te deixava responder completamente: te cortava, ansioso por te mostrar que meu mundo não era tão vazio quanto o sentia, afinal.

Amava incessantemente os seus olhos: queria absorver aquele castanho profundo que refletia dourado a luz do sol; e teus cabelos de cobre, desalinhados numa trança sem jeito. Amava sobretudo a doçura com que falavas e a forma simples e tímida com que tentava me mostrar um pouco do seu mundo, suas telas, canções, cores, os sonhos que entrecortavam tua respiração leve num sono turbulento.

Quem tu eras, então.

E como ela amava!
Sua voz vibrava num timbre encantador e perdia toda timidez ao falar do que a encantava no mundo; o que encantava os meus dias. Ela era uma brisa de frescor em meus dias vazios e quando percebi, refrescava-me em seu sorriso e bebia de suas fontes castanhas todas as tardes. E quanto mais tinha sua companhia, mais ansiava do brilho de seus olhos; ou do seu perfume de flor que o vento insistia em me fazer notar e hoje, insiste em lembrar-me, como tortura.

A amava profundamente.
E mesmo depois daquele impulso desesperado, da entrega sôfrega e do prazer que emanava de nossas almas e evaporava de nossos poros… Não fui capaz de dizer.

Partira, mas deixara tão vívida em minhas lembranças seus gestos, suas delicadezas e seus rubores. Enchera meu coração e o deixara repleto de fantasias e cores, letras e encantos: e um silêncio morno, suspirante, que longas canções ao piano são incapazes de esfriar ou preencher. Que nenhuma tarde de verão conseguirá imitar: porque a falta de tua respiração me condenava a te lembrar e só havia encanto e graça nas lembranças.

Já não me importava de viver: te lembrava e isso me era suficiente.

Impossibilitado de compartilhar teu mundo, escrevia-te longas cartas que jamais pude enviar: durante muito e muito tempo, escrevi para depois rasgar. Escrevi e depois queimei, escrevi e esqueci dentro de uma gaveta qualquer.
E inúmeras vezes, amargurado e saudoso de ti, embriagava-me solitário nas madrugadas em que os amigos faltavam.

E então, num fim de tarde qualquer, tu retornastes. Estava mais madura e mais esplêndida: impossível não dizer que mais bela e graciosa do que nas lembranças. Os ventos não mentiram e teu aroma de flor fresca me perseguiu com mais força e sem pudores por ruas de pedras antigas e corredores com quadros familiares.

Após dois longos anos, Caroline retornara.

E estava casada.

Published in: on outubro 3, 2008 at 3:07 pm  Deixe um comentário  

Das Coisas do Espírito

No céu, brilhava.

Havia a luz de mil sóis em meu plexo solar e a escuridão de mil noites sem lua sustentava meus pés. O encanto que me surgia brotava de fundo, das entranhas e subia como uma golfada quente, até conquistar o ar, onde corria os céus em formato de suspiro, um suspiro melódico e triste.

Enroscava-me em um caracol e delirava com os meus sonhos de Imperatriz, quando seria, então, liberta de toda a solidão do espaço e poderia iluminar de forma mais humana a tudo, sem precisar de tanta distância para que tudo não flamejasse em chamas eternas. E desejei com tanta intensidade que em algum momento senti o ar como navalha gelada em minha pele e o cheiro de água, e por fim o gosto da areia úmida e salgada.

Caíra.

O mar emocionado fez-me um vestido de espumas e conchas para que eu andasse entre os mortais sem que minha presença os amaldiçoasse. Eu estava feliz, então, e já não enroscava-me em caracol. Ansiava por mais.

O tempo passou: altiva, serena, comandava exércitos com a firmeza de um general e galopava por sobre os corações partidos daqueles que ousavam pertubar minha paz, sem merecê-la. Meu próprio coração? Este eu escondera há muito em um baú e enterrara fundo, tão fundo que somente quando perdia-me em fugazes devaneios é que o vislumbrava, precioso como era. O Encanto estava adormecido, mas atraía e encantava os mortais, posto que enquanto dormia, exalava um suave cheiro que embebedava os desavisados.

Era amada, adorada, venerada. Mas, sobretudo, temida; mais temida que amada, na verdade. E minhas batalhas por causas mais nobres, minhas conquistas de reinos distantes, tomava-me o tempo; e mesmo se houvesse tempo, não tinha interesse em desmistificar as lendas que se aglomeravam às minhas margens e que na escuridão da noite, eram sussurradas à meia voz, saídas de lábios ressequidos e entrando em orelhas frias.

Isso afastava os covardes e os mesquinhos.


Não porque fosse dura, mas sim porque era rígida e tinha valores e esperava que quem estivesse próximo de mim, também tivesse. Tinha brios, e testava ilimitadamente a todos, na esperança de que alguém alcançasse a nobreza de minhas ações.

Não era insensível, mas a superfície trivial escondia que era rocha: aguentando a fúria das ondas, o peso da chuva, a solidão das tardes ensolaradas; sempre presente, sempre fugaz, sempre adorada, sempre temida.
E muito, muito sozinha: talvez mais do que quando vagava lá em cima, observando tudo e ansiando pelas coisas do mundo. Tinha um coração doido por dentro que me fazia queimar, era puro magma correndo em minhas veias e no desespero meu suspiro se transformava em gemido, que não era mais melancólico e sim triste.

E quando a Lua surgia nos céus, eu olhava para o lugar onde um dia estivera e sonhava então: sonhava com alguém que se perdera ao me buscar, em prados longíquos onde rezavam minhas histórias à meia voz, onde eu não passava de um mito, onde me julgavam como um sonho, ou delírio inconsequente.

E mantinha meu coração escondido num baú, e a noite sonhava que ele será liberto, que serei enfim uma Estrela livre a rasgar o céu com sua cauda de fogo e o som do meu riso alegre e infantil destruirá as trevas da noite e a escuridão dos dias tristes.

Published in: on setembro 30, 2008 at 4:51 pm  Comments (1)  

Apenas esperanças

Ela sempre se deitava à beira da praia de madrugada e deixava que a fraca espuma das ondas molhassem seus cabelos e a ponta de seus dedos. Era a única forma que ela encontrava para se sentir menos só.

Cristina sempre estivera só, mas durante as madrugadas a sensação de solidão sempre pareceu mais sufocante. A dor que invadia seu peito era tamanha que se tornava praticamente impossível permanecer entre as paredes apertadas de seu apartamento; era nesses momentos que ela saía calmamente da cama, para não acordar seu marido, e partia para seus passeios noturnos. Quando voltava para casa percebia com descrença que mais uma vez sua repentina ausência não havia sido notada.

Havia se casado com a esperança de que seus dias de tristeza finalmente chegariam ao fim, entretanto, depois de cinco anos percebeu que vivia ao lado de um completo estranho. Ele nunca entendeu – ela suspeitava até que ele nunca tenha tentado – a dor que queima-a por dentro desde bem novinha e ela nunca percebeu a carência afetiva que ele trazia consigo; olhavam-se sempre, mas nunca se viram de verdade. Quando, de soslaio, percebiam a presença um do outro viravam-se para o outro lado para não terem a obrigação de finalmente se conhecerem; aprenderam com o tempo a esconder suas próprias mazelas, a conviver com o outro sem realmente perceber que ele estava lá.

Cristina sempre pensava nessas coisas enquanto permanecia deitada na areia e, por fim, sempre chegava à conclusão de que sua solidão se tornava imensamente maior todas as vezes que ela se via obrigada a disfarçá-la. Esse era o momento de sua reflexão em que, olhando para o horizonte escuro, ela acedia à sua necessidade de desabafo e chorava todas as lágrimas acumuladas em tantas circunstâncias. Já cansada, Cristina recolhia novamente seus pedaços e voltava para sua casa.

A volta sempre era o melhor momento de sua vida. Era quando, de alma lavada, ela acreditava que no dia seguinte não seria mais necessário voltar à praia porque, finalmente, ela não estaria mais só.

Published in: on setembro 27, 2008 at 6:12 am  Comments (1)  

Esquinas de mim

Hoje resolvi sair das muralhas de mim e visitar o mundo, fazia tanto tempo desde a última vez que estranhei as castanheiras secas e as violetas murchas (tudo o que me lembrava tinha tanta vida). Na primeira esquina me deparei com minha juventude, agora tão distante, e percebi o quanto as paixões pelas quais eu morreria nada mais eram do que sentimentos vazios de significado e por isso se foram com a mesma naturalidade com que chegaram.

Somente agora, tantos anos depois (não faço idéia de quanto tempo exatamente) consigo enxergar o quanto minha vida não foi mais do que um monte de fantasias de felicidades falsas onde o tempo todo me enganava acreditando possuir tudo o que todos queriam (beleza, dinheiro, diversão, homens a meus pés) quando na verdade eram os outros que tinham tudo o que sempre quis e nunca tive, o amor.

Se hoje sou essa capa de pele, ossos e vísceras que só consegue caminhar pelos bosques sem exprimir sentimento algum que me identifique como ser vivente é porque já exauri toda minha energia vital em uma juventude desviada e vazia (só hoje, ao caminhar pelo mundo, percebo o quão vazia era).

Tantos passaram por minha cama, tantos me juraram amor e fidelidade eterna… nem sei por onde andam ou o que toca seus corações. Na verdade, nunca soube, sempre os olhei mas o que enxergava era a mim com toda minha beleza e perfeição.

Na quadra seguinte, vejo meus sonhos não realizados e minhas mágoas que sempre tranquei no fundo do meu baú de quinquilharias. Não me preocupo em esconder mais nada, que vejam minhas feridas, se quiserem podem até tocá-las. Eu não sinto mais nada, sou apenas essa sombra pálida que um dia tentou viver e que até nisso falhou.

A figura que observam nada mais é do que a personificação da derrota, sou a personificação da derrota, penso nisso e não consigo nem mesmo sentir pena de mim.

Fico aqui, caminhando pelos bosques e esquinas do mundo a espera do fim do dia quando novamente voltarei para dentro de mim e, novamente inerte, aguardarei o momento quando a morte chegará para levar a mim e a meus falsos sentimentos que felicidade – a única coisa que sempre tive e que não pretendo deixar de herança para ninguém.

Published in: on agosto 27, 2008 at 4:01 pm  Comments (2)